perco-me dos sentidos
à medida que a fumaça sobe
e o cigarro acaba
que é o mundo
senão um grande palco
e um imenso conta-gotas de lágrimas?

que são as pessoas
senão personagens mudos
tropeçantes em olhares vagos
em busca de finais felizes?

— Neemias Melo

1:44
❝ Mãe, me empresta o carro para eu dar uma volta? Eu sei que ainda não tirei a carta de motorista, mas vê só como eu cresci. Já tenho de fazer a barba duas vezes por semana. Tenho cara de gente adulta. Mãe, a senhora viu meu isqueiro? Eu só quero dar uma volta por aí, estacionar em frente ao pequeno cristo redentor da nossa pequena cidade. Sozinho. Fumando. Do lado de fora do carro, porque a senhora não gosta do cheiro, mas mesmo assim se acostumou a me beijar a testa de manhã quando eu apanho o primeiro cigarro. “Bom dia, meu filho”. Bom dia, minha mãe. A senhora viu como eu cresci, mãe? Meus ombros estão largos, embora minhas mãos continuem bem pequenas. Tenho mãos de criança, mãe, mas sou crescido, sim. Minha dificuldade é só em segurar as coisas que as pessoas grandes seguram, mas minhas mãos se firmam no volante, mãe. A senhora aprendeu a dirigir com treze, não foi? Eu já tenho dezoito. Veja só, mãe, já tenho dezoito! Já posso ser preso. Já posso comprar minha própria bebida, ver filme pornô, entrar em bares. Eu tenho idade para isso, mãe. O que eu não tenho é vontade. Porque, embora eu tenha crescido, minhas vontades permaneceram pequenas. Eu gosto de brincar com os cachorros, de assistir desenho animado, tomar leite achocolatado e comer salgadinhos. O que mudou foi o cheiro de cigarro e a vontade de andar de carro, mãe. E eu só quero que a senhora me empreste por umas duas horas. Não preciso de mais. Só preciso de duas horas para perceber que eu cresci. Eu cresci, mãe. Tenho vontade de correr para qualquer lugar sempre que penso que cresci demais. E se eu fizer o que o resto dos adultos fazem, mãe? E se eu me tornar alguém tão forte quanto a senhora? E se eu perder a fé, mãe? E se eu perder a fé nas pessoas? A senhora sabe que eu sempre fui um pouco só, mas não é por maldade. É por curiosidade. Lembra quando a senhora era menina e ficava atrás das árvores vendo as carroças passar? Então, mãe, eu me escondo atrás desse corpo crescido para ver os adultos conversando na mesa. Para rir dos assuntos que eu não sei. Eu não sei ser gente grande, mãe. Mas eu sei dirigir. E isso me faz ser gente grande, não faz? Eu só preciso de duas horas. Eu juro, mãe. Duas horas, e eu volto com o cabelo cortado, e não deixo a senhora ver o carrinho que eu sempre guardo dentro do bolso.

— Neemias Melo

11:50
❝ O seu ciúme besta. Sempre o seu ciúme besta. Tínhamos tudo nas mãos. A faca, o queixo. Mas e o apetite, meu bem? Você vinha empanturrado de outros banquetes e eu, a pão e água, nunca soube lhe fartar. Eu lhe explicava, não sou igual às outras pessoas, não vim etiquetado como todo mundo vem. Saíamos com seus amigos, todos rindo das suas piadas, ninguém me olhava de frente, sempre pelas beiradas, e eu coçava as mãos, levantava os pés para contrair a panturrilha, para ver se aquela agonia passava. Duas horas de cerveja duravam uma eternidade em que eu não sabia aonde olhar. Eu tinha tudo: o coração livre, a conversa fiada, a roupa que me misturava ao resto da gente. Você tinha o ciúme, a desconfiança, a postura ereta, a arte de fazer qualquer pergunta se transformar num teste. E então adquiri também o medo. De falar num tom mais alto, de erguer a cabeça, de sorrir abertamente. Sempre o seu ciúme besta. Suas mãos inquietas que um dia se ergueram contra mim e me acertaram no rosto. As lágrimas que correram soltas enquanto você me xingava. Era assim que a minha cabeça deixava os meus dias, meus momentos de distração. Eu não precisava de ouvir absolutamente nada para que começasse a gritar e me justificar por um tropeço no cadarço, uma carne que passou do ponto. Meu Deus… Como é que aconteceu? Como é que eu desisti de tudo e fui embora de novo? Eu estava cansado de fugir. Exausto. O jeito era sair juntando tudo e pisar nas antigas pegadas, andar em marcha ré colhendo as roupas que caíram da mala que eu esqueci de fechar. Foi isso. Esse seu ciúme besta, que deixou um pedaço de vidro no meu coração, um coágulo no olho por insônia. Uma imagem triste de menino de volta ao lar, debaixo das asas ossudas da mãe, das músicas religiosas antigas que ela ouve no quarto, dos textos que não acabam nunca, num quarto sempre desarrumado. Meu Deus, meu Deus… Onde foi que eu assinei algum termo de infelicidade eterna? Quero o meu advogado. Quero o colo de minha mãe e não seus braços que me apertam. Quero minha porção infantil que me suja os pés e não me arde a face. Quero tudo mais bonito e menos denso. Um pedaço de amor que não me mate. Uma história de mentiras em que eu possa acreditar.

— Neemias Melo

6:24
❝ Fecho os olhos tão contente, tão leve, tão sereno, esperançoso de que, ao abri-los novamente, eu tenha as tuas formas a preencher-me a secura dos lábios. Do contrário, seria preferível que permanecessem fechados por um tempo indeterminado de morte.

— Neemias Melo

12:58
❝ As janelas estão fechadas, mas sinto o vento. O braço até arrepia. Está frio, mesmo que esteja debaixo de vários cobertores. Penso se colocar a cabeça debaixo deles me deixaria sem ar. Tenho asma. Quase morri por conta disso, umas três ou quatro vezes. Rio da idéia. Morrer sufocado por me esconder do frio e de um vento imaginário. Paro de rir. Curioso, como sempre paro de rir abruptamente, como se um pai severo me observasse em frente às visitas. Às vezes coço as pernas com muita força. Pedaços de pele se acumulam debaixo das unhas. Quase nunca sangra, mas dói. Pergunto-me se no mundo existem pessoas como eu: que coçam as pernas até que sangrem, que cessam o riso por medo de fantasmas ou lembranças. Acho que não. Para dizer a verdade, penso que tudo no mundo é uma mentira; que eu sou o deus da minha própria mente e que enlouqueci para cobrir do meu cérebro alguma coisa que eu não lembro, por ter enlouquecido. Talvez eu tenha matado minha própria mãe, embora a desta realidade me convença com suas palavras e gestos que é bem real a dor que minha existência a causa. Ou talvez eu tenha sido vítima de algum tipo de violência física ou emocional que tornasse os meus olhos estrábicos enquanto eu me retorcia numa convulsão. Ou talvez não. Talvez a vida seja mesmo assim. Assim patética. Mas não descarto as possibilidades. Penso que sou grande, e que meus dedos só não escrevem coisas mais belas porque as coisas mais lindas do mundo devem ser guardadas. Penso que sou indestrutível, e que, por mais que meu sangue escorra, o sopro de vida que carrego é levado no peito. É mais bonito assim. É também mais triste. Tentar sempre sobrepor uma realidade alheia à que tenho para não desapontar Deus. Sei que Deus nos colocou aqui. Sinto. Acho que, de onde Ele está, deve chorar. Por minha causa, apenas. E isso porque duvido que existam outros iguais a mim. Sonâmbulos. Pessoas que precisam de café e de lavar o rosto a cada quinze minutos para não acordar. Eu queria acordar, mas num lugar diferente. Abrir os olhos, ver que estou numa praia de areia branca e água límpida. O sol refrescaria minha pele gelada. Meus pés aquecendo-se na areia, meus olhos fechados deixando tudo à frente das minhas pálpebras alaranjado. Depois sorriria. Acabaria assim. Como num filme. O final de um filme. Tinha de ser assim, o final logo depois do começo. De outro modo, tudo desandaria de novo, eu perderia o controle das mãos, o chão me engoliria. Ai ai ai, meu Deus, minhas pernas. Sangrou, desta vez. Bosta! Não gosto de cheiro de sangue. Até acho a cor bonita. Penso se existem pessoas que sangram até a morte por causa alguma. Sorrio. Paro de sorrir. Alguém me vê. Alguém me escuta. Melhor entrar debaixo dos cobertores. Talvez morrer em posição fetal, abraçando a asma, e acordar na praia que narrei mais cedo, lembra? Claro que lembra! E deixar que se repita minha chegada ao novo sonho várias e várias vezes, até que eu me esqueça de onde vim, qual nome tenho, e que minha mãe chora quando me vê. Seria melhor assim. Um sonho dentro de um sonho. Como a vida que cabe em mim. Que se encaixa. Está frio. Minhas mãos estão geladas. Entro debaixo dos cobertores. Encolho-me. Sinto sono. Sempre sinto sono. Durmo. Não acordo. Pelo menos, não por enquanto. Não há pressa para acordar. Fico quieto. Espero. Abro os olhos para ver se vejo sinal de areia no meu colchão, ou algo que representasse a minha passagem para um outro lado. Nada. Repito três vezes. Nada. Estico-me. Parado fico. Decepcionado. Estou louco, tenho certeza. Não há pessoas como eu no meu mundo. Há apenas eu. Um menino e uma camada grossa de cobertores. Apenas eu.

— Neemias Melo

11:50
❝ Tristes são os meus olhos quando encontram um espelho.
Triste sou no reflexo d’uma poça d’água.
Triste é a minha imagem na imagem de qualquer coisa -
Enquanto outras e outras coisas se aglomeram nos meus cílios.
Mas triste não sou. Sou lido.

— Neemias Melo

11:54
❝ Passou-se o tempo e esquecerem de me passar. Ando amarrotado numa pele que creceu demasiadamente num corpo miúdo. Tropeço nas pelancas, asso nas dobras, canso-me de excessos. Seja lá quem me esticou, equeceu de alertar sobre o sufoco. Não sei se é falta de ar ou sobra de espaço, mas, por dentro, tudo me é pouco.

— Neemias Melo

11:56
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